2008-12-09, Paulo Brabo
Houve tempo em que toda a publicidade impressa era feita à base de ilustrações. Hoje em dia, depende.
Embora seja no fim das contas uma briga dura, uma ilustração pode por vezes transmitir uma determinada idéia com mais impacto e clareza do que uma fotografia. A ilustração aponta para o lado de dentro do cérebro: ela despe a mensagem de todos os acessórios não-essenciais e concentra-se no que você quer mostrar, dizer, transmitir. Uma incisão sensorial, por assim dizer – coisa cirúrgica.
Uma ilustração pode fazer um mascote melhor, um mapa mais legível, um apelo mais claro. A fotografia abre, a ilustração fecha. Fotografia é amor, ilustração é sexo – o que também quer dizer que podem idealmente conviver uma com a outra sem maiores problemas.
Há os ilustradores que especializam-se num estilo ou dois e há os renascentistas – que querem abraçar o universo e exploram mútliplas possibilidades de estilo e de materiais empregados. O melhor ilustrador é o cara que consegue lidar com o estilo apropriado à sua mensagem e ainda deixar a coisa com um sabor único e muito pessoal.
Uma xilogravura, um bico de pena, uma aquarela, uma pintura a óleo ou um desenho a pastel? Cada mensagem exige o seu próprio estilo; um ilustrador confiável pode ajudá-lo a encontrar o estilo apropriado para a sua mensagem ou confirmar as suas suspeitas, se você já tiver alguma.
A não ser que fique estabelecido no contrato, o ilustrador permanece dono dos direitos de reprodução (copyright) do trabalho que faz. Você em geral compra o direito de usar determinada ilustração por determinado período de tempo e com determinado propósito. Se o tempo de uso previsto for prolongado, ou se você pensar em utilizar a mesma ilustração em outro meio, deve voltar ao ilustrador para discutir uma nova remuneração.
Exceções importantes são personagens, ilustrações de embalagens e mascotes, cujos direitos de reprodução um contrato deve prover que permaneçam para sempre com você. Fazer diferente pode ser arriscado.
O ilustrador pode ainda exigir crédito: ou seja, que em algum lugar junto da ilustração, onde quer que ela seja usada, uma pequena frase ou assinatura mostrem que foi ele que fez.
Digamos que vale mais do que você vai acabar pagando.
Dito de outra forma, uma peça é em geral orçada a partir de dois critérios básicos: (1) complexidade e (2) aplicação.
(1) A complexidade depende do meio empregado (bico-de-pena, aquarela, pintura a óleo) e do grau de realismo da ilustração. Quanto maior o realismo, maior a complexidade. (Nota: complexidade, neste caso, subentende-se o tempo gasto na execução)
(2) A aplicação mede onde você vai usar a ilustração que está pedindo. Aplicação restrita é usar a ilustração somente numa embalagem, numa capa de livro ou num cartão de visitas. Aplicação ampla é usar a ilustração no seu produto, em cartazes na sua empresa e numa campanha publicitária com direito a outdoor, peças de jornal e revista e inserções na televisão em rede nacional.
De modo geral, quanto menor a complexidade e menos ampla a aplicação, menos você tem de pagar.
A pressa é inimiga da negociação – uma ilustração feita para ontem pode custar muito mais caro do que, digamos, uma para amanhã. Dependendo do tamanho da pressa e do projeto, um ilustrador pode sentir-se à vontade para cobrar até 50% a mais do que cobraria em condições normais de temperatura e pressão. Você também é, naturalmente, livre pra procurar outro ilustrador que se submeta às suas exigências.
Em primeiro lugar, um ilustrador confiável vai saber dizer se o que você quer é realmente o que você precisa. Ouça o cara.
Dito isso, especialmente em se tratando de projetos grandes e custosos, o ilustrador pode requerer pelo menos uma remuneração parcial pelo trabalho que teve, caso você volte atrás no pedido ou resolva não aprovar a coisa.
Em geral, no entanto, você só paga pelo que aprova.
Para evitar a rejeição é fundamental um briefing bem passado – isso é, ilustrador e cliente conversarem até à plena satisfação sobre o que é preciso ser feito, como e quando. Se você aprovar o esboço que o ilustrador fez depois dessa conversa, e se ele se mantiver fiel ao esboço, espera-se que você aprove e pague.
Como tudo no mundo, a coisa começa com uma conversa sem compromisso. Você e o ilustrador conversam, discutem estilo, complexidade e aplicação e ele fica de te mandar um orçamento. Aprovado o orçamento e o prazo, o ilustrador faz um esboço do que tem em mente e manda pra você aprovar. Aprovado o esboço, o ilustrador faz o que você pediu, manda o trabalho (espera-se, dentro do prazo) e você (espera-se) aprova.
Você ou a sua agência de propaganda pagam o ilustrador, usam a imagem dentro dos limites combinados e ficam ricos e famosos.
Depois todo mundo se encontra pra tomar um cafezinho ou receber algum prêmio numa festa em que ninguém quer ir.
É o preço da fama.
Paulo Brabo
Ilustrador.